5. GERAL 21.11.12

1. GENTE
2. ESPORTE  O NOVO PASSO DE PEL
3. CRIME  NO BANCO DOS RUS
4. ANIMAIS  O MELHOR MODO DE DIZER ADEUS
5. LUXO  CASINHAS NA PRAIA?
6. GUSTAVO IOSCHPE  QUEM SO OS PROFESSORES BRASILEIROS?

1. GENTE
JULIANA LINHARES. Com Dolores Orosco, Mariana Amaro e Marilia Leoni

OLHA A CABELEIRA DA LUCY
Quando LUCY RAMOS entra em cena na novela Salve Jorge, fica difcil prestar ateno nas outras atrizes. Alm da combinao trplice de sucesso garantido  rosto lindo, corpo fininho e desenvoltura , Lucy (a Sheila da trama) ostenta uma cabeleira impressionante. Parte dos cachos  dela. A outra parte vem da ndia, pas onde a cabeleireira Doralice Fernandes, da Globo, compra extenses capilares. Enrolo as mechas lisas em bobes e as deixo por cinco minutos na panela de presso, com uns produTinhos. Elas saem todas aneladas, diz Doralice. O cabelo indiano  mais barato que o brasileiro e tem menos qumica. Depois da novela, Lucy viver no cinema a ex-senadora Marina Silva, de coque sbrio. Estou ansiosa para fazer esse papel, diz Lucy. Mas meu namorado prefere meu cabelo assim, mais para mulhero.

IBRACADABRA
Ele fez um dos gols mais bonitos da histria: de bicicleta e a 30 metros de distncia. Foi o ltimo dos quatro tentos da Sucia  todos dele  na vitria por 4 a 2 contr a Inglaterra. Para quem acha que a marca de ZLATAN IBRAHIMOVIC foi pouca coisa, ele tem outras quinze no corpo: um drago vermelho, que simboliza esprito guerreiro; uma carpa, no ombro esquerdo, peixe que luta contra a corrente; e uma tribal, no lado direito, que, para Ibra, traria sorte aos filhos e  mulher  cujas datas de nascimento esto tatuadas em seus pulsos.  O cabelo  samurai e o narigo, que os maldosos dizem sempre deixa-lo no linha de impedimento, completam o visual poderoso. No impressionou? Ele tambm  faixa preta de tae kwon do.

A VERMELHINHA E O VERMELHO
O vdeo do cantor sul-coreano PSY fazendo a dancinha Gangnam Style  em que ele galopa um cavalo imaginrio   o segundo mais visto da histria, na internet (o primeiro  o de Justin Bieber cantando Baby). Desde julho, quando a msica despontou, muita gente improvvel j imitou os passinhos: David Cameron, primeiro-ministro ingls, Britney Spears, o piloto Sebastian Vettel e at Ban Ki-moon, secretrio-geral da ONU. Psy, que levou trinta noites para inventar a dana, eclipsou o sucesso de artistas h dcadas na pista. At MADONNA se rendeu. Esperta, ela surfou na onda do coreano e o levou para cantar em um de seus shows, em Nova York. O vermelho fez mais barulho que a vermelhinha.

PUXOU  MAME
A modelo BRBARA EVANS, de 20 anos, bem que tentou fugir da trilha escrita pela me famosa, Monique. Comecei os cursos de administrao, nutrio e odontologia. No deu certo, nasci mesmo para ser reconhecida, diz Brbara. Hoje distante do ambiente acadmico, ela se dedica a questes mais ntimas. Fui beb de proveta, minha me tomou muito hormnio no tratamento. Acho que minhas celulites vm da.  bobagem. No h comprovao cientfica da relao entre as duas coisas. Outros defeitinhos? Sim, segundo a prpria. Mas ningum liga. At Brigitte Bardot, de quem Brbara empresta a pose, tinha um, os dentinhos separados. E eles eram um charme.

IRM DE MISS
Foi duro para os jurados, mas na ltima pergunta eles conseguiram decidir que RINA ( esq.), e no sua irm gmea, ROMY CHIBANY, levaria o ttulo de miss Lbano. A Rina foi perguntado o que era mais decisivo, beleza ou cultura. Beleza  a chave de tudo, respondeu a vencedora. As irms de 21 anos dividiram todos os prmios: joias, carro, apartamento e mveis. Em companhia do ministro do Turismo libans, a campe, que faz faculdade de arquitetura, vem ao Brasil para promover as relaes entre os pases. Est animada. Trata-se da terra de seu escritor preferido, Paulo Coelho, que substituiu Saint-Exupry, de O Pequeno Prncipe, no gosto unnime das misses.


2. ESPORTE  O NOVO PASSO DE PEL
O implante de duas prteses no quadril pode livrar o rei da dor dilacerante causada por uma artrose severa.
GABRIELA CARELLI

     No dia 2 de junho de 1962, aos 25 minutos do primeiro tempo de Brasil e Checoslovquia, na Copa do Chile, Pel sentiu uma fisgada na coxa direita. Sem condies de continuar a partida, deixou o gramado abraado ao massagista Mrio Amrico. A cena, capturada por um fotgrafo do jornal O Globo,  um dos rarssimos registros do jogador fragilizado. Em duas dcadas de carreira, o rei, mesmo contundido, sempre fez questo de preservar a imagem de atleta indestrutvel. Ele jamais usou muletas em pblico e rarssimas vezes saiu de campo numa maca, at mesmo quando foi caado pelos adversrios, como no jogo da seleo contra Portugal, na Copa de 1966. No domingo 11, aos 72 anos, Pel finalmente cedeu, e precisou de um andador para se movimentar pelos corredores do Hospital Israelita Albert Einstein, em So Paulo. Um dia antes, ele havia se submetido a uma cirurgia para a colocao de duas prteses no quadril, de modo a tratar uma artrose severa. Ele ficou incomodado com essa condio no incio, sempre foi independente e nunca precisou de auxlio para se movimentar, conta a filha de Pel, a fisioterapeuta Flvia Kurtz, que acompanha o pai desde o diagnstico da doena, em 2010. Mas no demorou para fazer piada da situao. Deu at um apelido ao andador, Walkie. Pel ter de usar uma bengala pelos prximos trinta dias  e no est disposto a aparecer em pblico assim. Ele j cancelou a participao no sorteio da Copa das Confederaes, no dia 1 de dezembro, em So Paulo.
     A artrose se caracteriza pela degenerao das articulaes e pode atingir diversas partes do corpo. No caso de Pel, foi o quadril direito. Justamente o lado direito, fonte primordial de seus gols.  como se Maria Callas, depois da aposentadoria, operasse as cordas vocais ou Michelangelo, as mos. Os primeiros sintomas da artrose foram uma dorzinha de nada na virilha e o incmodo na hora de subir as escadas de sua casa na Praia de Pernambuco, no Guaruj. Com o passar dos meses, o tal incmodo se tornou mais constante. Nos Estados Unidos, Pel consultou seu mdico de confiana, o mesmo dos tempos do New York Cosmos, que lhe receitou fisioterapia e anti-inflamatrios. Passado um ano, a fisgada se transformou numa dor dilacerante. A nica sada era a cirurgia. Ele prorrogou ao mximo a operao, no queria ir para a faca, no queria ficar parado de jeito nenhum, diz a filha. Ativo, Pel j no joga mais futebol, nem por brincadeira, mas se exercita por ao menos uma hora todos os dias numa academia de musculao.
     A artroplastia de quadril  uma cirurgia simples. O procedimento consiste na substituio da cabea do fmur e do acetbulo desgastados. No caso de Pel, foram usadas prteses de cermica. Elas custam entre 15.000 e 30.000 reais e duram cerca de trinta anos, o dobro das de metal e polietileno. So realizadas cerca de 50.000 cirurgias do tipo no Brasil todos os anos.

COMO FOI A CIRURGIA 
O passo a passo da interveno  qual Pel foi submetido

1- O diagnstico
A artrose no quadril direito de Pel foi diagnosticada em 2010. A doena provoca o desgaste da cabea do fmur, o mais longo e volumoso osso do corpo humano, e do acetbulo, a cavidade na pelve onde ocorre o movimento. No ltimo ano, a degenerao atingiu o grau mximo. Nesse estgio, a dor  dilacerante, e a cirurgia  o nico tratamento vivel.
2- A operao
 Pel passou por uma artroplastia, para a colocao de prtese no quadril.
 Um corte no msculo da coxa permite a substituio das partes desgastadas por prteses de cermica.
 Para afixar a cabea do fmur ao osso, utiliza-se uma haste de titnio.
3- A recuperao
Na primeira semana, Pel movimentou-se com a ajuda de um andador. Ter de usar uma bengala pelos prximos trinta dias. Com sesses dirias de fisioterapia, poder fazer exerccios leves, como natao e caminhada, dentro de 45 dias.
Fonte: Roberto Dantas Queiroz, cirurgio de quadril e mdico do corpo clnico do Hospital Albert Einstein.

COM REPORTAGEM DE SIMONE COSTA

FALTA CHO PARA MESSI
     A comparao de Lionel Messi (o incontestvel atual melhor do mundo) com Pel  prematura e indevida. No domingo 11, na vitria do Barcelona contra o Mallorca, o craque argentino superou o nmero de gols do rei do futebol numa nica temporada, de janeiro ao fim do ano. Chegou aos 76, ante os 75 de Pel em 1958. Ocorre que Messi atingiu a marca em 59 jogos, com mdia de 1,29 gol por partida. Pel estabeleceu seu recorde com 53 jogos, mdia de 1,41 gol. Com os atuais 25 anos de Messi, Pel j tinha marcado 584 gols, ante 304 do canhoto de Rosrio. Aos 25, Pel era bicampeo mundial pela seleo brasileira e pelo Santos. Messi conquistou apenas dois mundiais de clubes, pelo Barcelona.
     Messi, sem dvida, tem a seu favor um tempo, o nosso, em que as grandes jogadas so compartilhadas no YouTube, no Facebook e no Twitter. Muito do que Pel fez, ningum nunca viu  e ele prprio gosta de colar ares romnticos e cores inacreditveis  frieza estatstica. V-lo explicar o gol contra o Juventus, em 1959 (ele tinha 18 anos), o suposto mais bonito de sua carreira,  imagin-lo de mil formas diferentes e criativas. A ausncia de registros faz com que Messi e alguns outros cresam quando comparados ao mais famoso camisa 10 da histria. Pai, qual  mesmo o nome desse cara que voc diz ser melhor que o NeymarT?  pergunta recorrente e compreensvel. Pel, para muito alm das estatsticas que Messi vai construindo, ostenta a subjetividade que cerca os gigantes. A genialidade de um atleta no se mede apenas com nmeros. Um jogador mgico se faz com muitos gols, dribles eternizados, ttulos, carisma, personalidade e sucessivos anos de fama global. Em 1969, o governo da Nigria decretou um cessar-fogo na Guerra de Biafra para que a populao pudesse assistir ao craque brasileiro no amistoso entre o Santos e a seleo daquele pas. Parar uma guerra no  para qualquer um. Lionel Messi tem tudo para vencer a sua, encostando e at superando o brasileiro, mas resta ainda muito cho a percorrer, ao contrrio do que parecem informar os nmeros da semana passada.

PROVA DOS DEZ
Pelos critrios estatsticos, Pel ainda  incomparvel
O brasileiro supera o argentino na mdia de gols por jogo no ano mais goleador de cada um
MESSI (de janeiro a 11 de novembro de 2012)
Gols: 76
Jogos: 59
Mdia de gols por jogo: 1,29

PEL (de janeiro a dezembro de 1958)
Gols: 75
Jogos: 53
Mdia de gols por jogo: 1,41

Com a mesma idade de Messi hoje (25 anos), Pel tinha feito quase o dobro de gols em um nmero de partidas ainda menor  e j era bicampeo mundial pela seleo brasileira (*Foram considerados apenas jogos de campeonatos oficiais pelos clubes e disputas oficiais e amistosos das selees)
MESSI
Gols 304
Jogos 403
Mdia de gols por jogo 0,75

PEL
Gols 584
Jogos 388
Mdia de gols por jogo 1,5

Fontes: FC Barcelona e Pel, O Supercampeo, de Orlando Duarte.


3. CRIME  NO BANCO DOS RUS
O julgamento do ex-goleiro Bruno comea com a defesa armando confuso e duas testemunhas-chave ausentes.

s 9 horas da manh desta segunda-feira, 19, sete jurados estaro a postos no acanhado tribunal de Contagem, na Grande Belo Horizonte, para o julgamento de Bruno Fernandes de Souza, de 27 anos, acusado de mandar assassinar a amante Eliza Samudio, em junho de 2010. O enredo macabro tem todos os ingredientes de um filme. Bruno, ex-goleiro do Flamengo, era dolo mximo do time quando o crime foi cometido. O corpo de Eliza nunca apareceu. Entre os outros acusados h duas ex-mulheres de Bruno. Sobre o quarto envolvido, Luiz Henrique Romo, o Macarro, resvalam suspeitas de envolvimento amoroso com o ex-goleiro. O quinto, Marcos Aparecido dos Santos, o sombrio Bola,  descrito pela promotoria como matador. Como se no bastasse o inusitado dos personagens no banco dos rus, uma tropa de advogados faz de tudo para complicar o processo  a comear pelo defensor de Bruno, Rui Pimenta. Em entrevista a VEJA, em junho, Pimenta, contratado no meio do caso, foi categrico: Claro que Eliza est morta. Quando assumi, disse para o Bruno que no havia como negar isso. Que essa era uma ttica de advogado fraquinho. Na semana passada, ressuscitou a vtima: tratou de divulgar rumores de que Eliza foi vista na Bolvia, nos Estados Unidos e at no Leste Europeu.
     Armar confuso  ttica dos advogados para desviar a ateno das revelaes contidas no processo de mais de 10.000 pginas sobre a trama armada por Bruno para eliminar uma ex-amante cada vez mais incmoda. So provas tcnicas, cientficas e testemunhais. Um exame de DNA comprova a presena de sangue de Eliza no carro do goleiro, mostrando que ela foi levada  fora do Rio de Janeiro para o stio dele em Minas Gerais. O rastreamento das ligaes feitas em celulares refaz os passos do grupo do Rio ao stio e de l  casa do assassino. Uma carta interceptada na cadeia e revelada por VEJA, de Bruno para Macarro, fala em um plano B, que consistiria em jogar a culpa de tudo no fiel escudeiro. O conjunto probatrio deixa clara a inteno de matar e dar um fim ao corpo de Eliza, afirma o promotor Henry Vasconcelos Castro.
     Mais contundente ainda seria o relato de duas testemunhas-chave que no iro ao tribunal. Um primo de Bruno, Srgio Rosa Sales, que esteve no cativeiro de Eliza e relatou  polcia ter visto o goleiro queimar os pertences da amante, foi assassinado quatro meses atrs, em Belo Horizonte. Outro primo, Jorge Luiz Rosa, que ficou detido e foi solto em setembro, ingressou em um programa de proteo ao adolescente vtima de ameaa de morte. Ele chegou a confessar ter acompanhado Macarro do comeo ao fim da trama, mas voltou atrs. Sua me, Simone Santos Lisboa, aflita, disse a VEJA: Na ltima vez que vi meu filho, em agosto, ele me disse que ia pedir proteo. O Srgio tinha morrido e ele estava apavorado. Nunca mais eu soube dele.
LESLIE LEITO


4. ANIMAIS  O MELHOR MODO DE DIZER ADEUS
Os donos de animais de estimao esto diante de um novo dilema tico e afetivo: a deciso de sacrificar ou cuidar at o fim dos bichinhos enfraquecidos pelas doenas da velhice.
CAROLINA MELO

     Ningum gosta de pensar no momento em que ser obrigado a se desfazer de seu animal de estimao  mas no  fcil cuidar dele quando ele fica velho e doente. Muitas vezes, quando os males da idade causam sofrimento ao bichinho, impondo-lhe uma m qualidade de vida, o veterinrio d o temido conselho: o melhor  sacrific-lo. A eutansia em animais domsticos tem se tornado necessria e frequente porque eles vivem muito mais do que no passado. Antigamente, era raro um cozinho ou gato viver tempo suficiente para sua velhice se tornar um problema. Hoje, isso  muito comum. Os avanos na medicina veterinria verificados na ltima dcada permitem que os animais domsticos tenham uma longevidade indita na histria. Repete-se, com eles, o mesmo fenmeno que ocorre com os humanos, tambm beneficiados pela medicina. Os ces podem chegar aos 18 anos e os gatos, aos 20. Isso  o dobro da mdia dos anos 80. O lado negativo desse aumento na longevidade  o surgimento de doenas prprias da idade avanada, como insuficincia renal, problemas cardacos e cncer.
     A aplicao frequente da eutansia a ces e gatos fez com que, h seis meses, o Conselho Federal de Medicina Veterinria emitisse uma resoluo complementar ao seu cdigo de tica tratando do assunto. As mudanas, no geral, indicam maior preocupao com o bem-estar dos animais, diz o veterinrio Marcelo Teixeira, membro do conselho e professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco. Pelo novo texto, foram classificados como inaceitveis os mtodos de eutansia tradicionais, como submeter o animal a horas de aspirao de vapores de ter, o que lhe causa dores nos pulmes. A resoluo recomenda, para o sacrifcio do animal, mtodos indolores como o uso de anestsicos, hoje o procedimento mais utilizado pelos veterinrios. Os anestsicos so os mesmos usados em cirurgias, mas injetados em doses trs vezes maiores. Quando o animal apaga, injeta-se cloreto de potssio, para estimular o corao a parar de funcionar. O animal no sente nada e morre de parada cardiorrespiratria entre 15 e 30 minutos aps a aplicao do anestsico. O procedimento custa entre 300 e 600 reais, dependendo do tamanho do animal. Foi por meio de anestsicos que, h trs meses, a consultora de moda paulistana Christina Kiraly sacrificou seu golden retriever George, de 14 anos. Aps um ano lutando sem sucesso contra um cncer no fgado do co, ela optou pela eutansia. Ele no era mais o mesmo, relata. Eu no conseguia assistir quele sofrimento. J conheci gente que prefere manter seu animal em agonia, mas eu no faria isso com o meu, ela diz. Para aliviar a dor da perda, Christina guarda as cinzas de George numa urna.
     Quem, mesmo aconselhado pelos veterinrios a realizar a eutansia, prefere no sacrificar o amiguinho, deve se preparar para manter em casa um animal que requer tratamentos semelhantes aos utilizados em humanos, inclusive no preo cobrado por eles. A professora paulista Luciana Fernandez gastou 7000 reais nos ltimos dois meses para tratar de um linfoma que acometeu seu gato Vtor, de 10 anos. O animal foi tratado com quimioterapia, mas no teve boa resposta  medicao. Vtor  considerado um paciente em estado terminal, tem dificuldade para andar e precisa de medicamentos dirios. Prefiro acordar um dia e encontr-lo morto a lev-lo a algum lugar para mat-lo, ela diz. Mas no posso ser egosta, se ele comear a sofrer muito, terei de optar pela eutansia, completa. O advogado Lincon Teixeira e sua mulher, Maria Estela, desembolsaram 20.000 reais nos ltimos sete meses para combater a insuficincia renal da cadela malts Nanuche. O animal parou de comer, beber gua e andar. J havamos optado pela eutansia se ela continuasse assim, porque ela estava sofrendo muito, diz Estela. Nanuche se recuperou dos sintomas e seus donos acreditam que ela ainda tem qualidade de vida para seguir em frente. H trs anos o labrador Ring, da administradora Tatiana Hirakawa, ficou paraltico e se submeteu a uma cirurgia na coluna. Os veterinrios a advertiram que, se ele no recuperasse os movimentos, o sacrifcio seria a melhor opo. J gastei 15.000 reais em tratamentos e Ring recuperou, em parte, os movimentos, ela conta.
     A escritora americana Jessica Pierce, que h um ano sacrificou seu labrador, acaba de lanar nos Estados Unidos o livro The Last Walk (A ltima Caminhada), em que aborda a eutansia animal sob vrios aspectos. Ela chama ateno para o fato de que muita gente sacrifica os animais porque simplesmente no tem pacincia para cuidar deles quando velhos. Escreve Jessica: A eutansia de animais domsticos est profundamente enraizada na cultura americana, e raramente refletimos sobre as questes morais que ela envolve. Nos Estados Unidos, 35% da populao de 172 milhes de animais de estimao  considerada como paciente geritrico. Isso abriu uma nova frente na medicina veterinria americana  os cuidados paliativos. Assim como  feito com os humanos, a medicina paliativa ameniza a dor e o sofrimento dos pacientes em estado terminal, at o momento da morte. Quando o sofrimento  incontornvel e nem a medicina paliativa funciona, no entanto, o sacrifcio pode ser a melhor soluo para o amiguinho de longa data.

AMIGOS POR MAIS TEMPO
O avano nos tratamentos veterinrios aumentou a longevidade dos animais domsticos

Expectativa de vida na dcada de 80
Ces 9 anos
Gatos 10 anos
Equivalncia  idade dos humanos: 70

Expectativa de vida na dcada de 90
Ces 12 anos
Gatos 14 anos
Equivalncia  idade dos humanos: 80

Expectativa de vida hoje
Ces 18 anos
Gatos 20 anos
Equivalncia  idade dos humanos: 95

Fonte: Mrio Marcondes, do Hospital Veterinrio Sena Madureira.


5. LUXO  CASINHAS NA PRAIA?
Nada. Os megaiates tm lanchas, helicpteros e at submarinos a bordo. Os bilionrios adoram porque so exclusivos. O show comea em 200 milhes de dlares.
MARIANA AMARO

     Foi um dos casamentos mais comentados da histria. Jacqueline Kennedy e Aristteles Onassis casaram-se a bordo do Christina O, o iate de 100 metros do armador grego. O ano era 1968, e Onassis j sabia do fascnio que uma embarcao daquelas, sobretudo se enfeitada por Jackie, causava. Pelo Christina, comprado com os milhes ganhos em negcios com a marinha mercante, passaram o prncipe Rainier, Winston Churchill, Marilyn Monroe e Liz Taylor. Na festa, a piscina, adornada com um mosaico igual ao do Palcio de Minos, em Creta, virou pista de dana.
     Aos olhos de hoje, o Christina  um reles barquinho. Desde ento, os iates vm assumindo o posto de smbolo de status por excelncia no universo dos bilionrios. Um Bentley pode ter bancos de couro vermelho, mas  o mesmo carro que todos os donos tero. Jatinhos idem. A exclusividade da construo (quase sempre megalmana) e a ausncia de limites na decorao fazem dos iates incomparveis brinquedos de luxo. O iate  o nico bem que alia a personalizao, como em uma manso, com a possibilidade de ser exibido por a, como os avies, diz Marcus Matta, diretor do Prime Fraction Club, empresa de compra compartilhada de bens de luxo.
     H hoje cerca de 4200 megaiates singrando os mares. Eles no custam menos de 200 milhes de dlares e, apenas para encher o tanque de diesel, consomem 650.000 dlares. Os proprietrios so magnatas russos, xeques rabes, ingleses de riqueza centenria e jovens americanos da rea de tecnologia. Os iates dessas turmas tm no s heliponto, mas hangar para helicpteros. Tm lanchas na garagem. Tm at pequenos msseis  no caso dos russos, loucos por segurana. O precursor desse mundo  Roman Abramovich, dono do clube de futebol Chelsea e proprietrio do maior iate do mundo, o Eclipse, de 163 metros, que custou 400 milhes de dlares em 2010. rfo aos 4 anos, ele comeou sua fortuna com controversas exportaes de leo na dcada de 90 e a aumentou com investimentos na indstria de ao e gs. Andrey Melnichenko, outro russo endinheirado, da rea de metalurgia e minas de carvo, irrompeu h pouco nesse time com um iate de design arrojadssimo. Planejado pelo arquiteto francs Philippe Starck, o A tem a proa em forma de bico de gavio. Ela fura as ondas em vez de acompanhar o movimento delas. Queria um desenho orgnico, que no tratasse o mar com arrogncia, diz Starck. A sute principal, de 230 metros quadrados,  alcanada por um elevador interno e s pode ser aberta mediante a impresso digital de Melnichenko ou de sua mulher. Por dentro, seus 2200 metros quadrados so enfeitados com quadros de Monet e paredes forradas de pele de arraia albina ou de bezerro, trabalhada a mo. Mas foi o antigo dono da vodca Stolichnaya, Yury Schefler, quem, em 2011, arrasou o quarteiro: construiu o Serene, por impressionantes 330 milhes de dlares. Frescurinhas dele: piscina de gua salgada e com ondas, submarino e contorno de neon azul, que acende automaticamente ao anoitecer.
     A leva de megaiates dos lados de emirados rabes  de outra cepa. Ao contrrio dos russos exibicionistas, os rabes constroem seus barcos em segredo, por anos, e no deixam que eles sejam fotografados. O presidente dos Emirados rabes Unidos, xeque Khalifa bin Zayed alNahyan. pagou 630 milhes de dlares ao estaleiro alemo Lrssen para financiar o Azzam, de 180 metros, que, em 2013, bater a supremacia do Eclipse. Os rabes nos procuram porque temos uma poltica rgida de confidencialidade, diz Michael Breman, diretor de vendas da Lrssen, estaleiro que tambm construiu o Katara, de Hamad bin Klalifa al-Thani, emir do Catar, com um parque aqutico dentro  desfrutado s pelos homens.
     O custo da manuteno de iates desse porte chega a 20 milhes de dlares por ano.  em parte por causa disso, e em parte porque os donos de iates querem que o barco e a tripulao fiquem em movimento  est-se falando de at setenta funcionrios  que muitos deles so alugados. Os aluguis mais caros chegam a 2 milhes de dlares por semana: e normalmente so divididos por trs casais endinheirados. No Brasil, as pessoas ainda tm preconceito em dividir barco. L fora, os ricos todos fazem isso, diz Tomas Perez, presidente da Teresa Perez Tours, que aluga iates para brasileiros.
     No  prtica comum os barcos rabes estarem  disposio, mas os de ingleses, povo com vasta tradio nutica, costumam ser ofertados. Iates russos e americanos tambm. A recente curiosidade  saber o que a famlia de Steve Jobs, fundador da Apple, morto no ano passado, far com o seu Venus. No esteio dos colegas pontocom que desfilavam (e ainda desfilam) em iates, como Bill Gates e Paul Allen, Jobs se encantou pela onda e, quatro anos antes de morrer, comeou a montar seu brinquedo. O barco  a cara dos produtos asspticos, de linhas muito ntidas, da Apple: todo de vidro e alumnio, predominantemente branco. Os blogueiros cravaram: parece um iPhone em cima de um iPad, postos suavemente sobre um MacBook Pro. 

Nome: SERENE  Rssia
Preo: 330 milhes de dlares
Tamanho: 134 metros
Proprietrio: Yury Shefler, antigo dono da vodca Stolichnaya, confircada pelo governo russo
Histria: a construo durou quatro anos. Quando apareceu, causou alvoroo com suas luzes de neon azul
Luxo: submarino acoplado, dois helipontos, piscina interna de gua salgada, elevador que leva  cabine principal, piano bar, teatro e imensos sales.

Nome: A  Rssia
Preo: 300 milhes de dlares
Tamanho: 120 metros
Proprietrio: Andrey Melnichenko, bilionrio russo
Histria: foi desenhado e decorado por Philippe Starck, figurinha fcil e carimbadssima
Luxo: a sute de Andrey tem 230 metros quadrados e s  aberta com sua impresso digital. Tem janelas  prova de bomba, spa, piscinas  do fundo de vidro de uma delas, d para ver a discoteca.

Nome: Venus  EUA
Preo: 200 milhes de dlares
Tamanho: 78 metros
Proprietrio: os herdeiros de Steve Jobs, fundador da Apple
Histria: o ltimo projeto de Jobs, que morreu em 2011
Luxo:  controlado por sete iMacs de 27 polegadas, que ficam em uma sala s para eles. As janelas, criadas pelo engenheiro-chefe das lojas da Apple, so painis de vidro que vo do cho ao teto.

TRIBOS AO MAR
Os donos de iates se dividem em grupos muito ntidos pela maneira como usam seus barcos.

Tribos: PONTOCOM
Comportamento: Os jovens milionrios da informtica contratam pilotos para apostar corrida
Design do iate: Modernosos, com enormes painis de vidro e ao escovado
Uso: Eles fazem baladas no Beach Club, uma espcie de deque gigante, com piscinas e bares

Tribos: RUSSOS
Comportamento: Sempre tm loiras, de biqunis minsculos e joias maisculas, na proa
Design do iate: Os mais arrojados. Ferragens cobertas de dourado dominam quartos, banheiros e cozinhas
Uso: Para ostentao. Demi Moore e Madonna j estiveram em festinhas no colosso nutico de Roman Abramovich

Tribos: INGLESES
Comportamento: Tm tradio nutica. Gostam de ler cartas e fazer pequenos consertos nos barcos
Design do iate: Preferem praticidade a excentricidades
Uso: Aproveitam duas semanas do vero europeu e passam o barco para locatrios

Tribos: RABES
Comportamento: Quase sempre s homens sobem a bordo; e, geralmente, de tnica branca 
Design do iate: As varandas so fechadas com vidro por causa do ar-condicionado ligado no mximo
Uso: Para fazer negcios. O gigantismo dos barcos demonstra o poder de fogo dos negociantes


6. GUSTAVO IOSCHPE  QUEM SO OS PROFESSORES BRASILEIROS?
 impressionante como sabemos pouco sobre os principais atores do nosso sistema educacional, os professores. Claro, se voc acredita na maioria das notcias e artigos veiculados sobre eles, j deve ter um quadro perfeito formado na cabea: os professores so desmotivados porque ganham pouco, precisam trabalhar em muitas escolas para conseguir pagar as contas do fim do ms. O sujeito se torna professor, no Brasil, por falta de opo, j que no consegue entrar em outros cursos superiores. Portanto, j chega  carreira desmotivado, e, ao deparar com o desprezo da sociedade e seus governantes, desiste da profisso e s permanece nela por no ter alternativa. Essa  a verso propalada aos quatro ventos. Mas eu gostaria que voc, dileto leitor, considerasse uma hiptese distinta. E para isso no quero usar a minha opinio, mas dar voz aos prprios professores. Os dados que vm a seguir so extrados de questionrios respondidos por professores da rede pblica brasileira, em um caso para compor um Perfil do Professor Brasileiro da Unesco, em outro em pesquisa Ibope para a Fundao Victor Civita e, finalmente, na Prova Brasil de 2009 (a ltima com microdados disponveis. A ntegra dos trs pode ser encontrada em twitter.com/gioschpe).
     Comecemos pelo incio. No  verdade que os professores caiam de paraquedas na carreira. O acaso motivou a entrada de s 8% dos mestres, e s 2% foi dar aula por no conseguir outro emprego. Sessenta e trs por cento dos docentes tm inclusive outros membros da famlia na profisso. Perguntados sobre a motivao para exercerem a carreira, 53% dizem que  por amor  profisso e outros 14% apontam ser para contribuir para uma sociedade melhor. S 15% citam motivos que podem ser interpretados como oportunistas ou indiferentes  funo social da profisso (9% mencionam realizao profissional e 6%, salrio/benefcios oferecidos). O professor no tem uma m percepo da sua profisso: 81% concordam que so muito importantes para a sociedade e 78% dizem ter orgulho de ser professor(a).
     As pessoas que optam pela carreira de professor no so derrotadas. Pelo contrrio, so profundamente idealistas. Querem mudar o mundo, mudando a vida de seus alunos. Quase trs quartos dos professores (72%) acham que uma das finalidades mais importantes da educao  formar cidados conscientes. Nove entre dez professores concordam que o professor deve desenvolver a conscincia social e poltica das novas geraes. Apenas 45% acreditam que o professor deve evitar toda forma de militncia e compromisso ideolgico em sala de aula
     Esse jovem idealista ento vai para a universidade estudar pedagogia ou licenciatura na rea que lhe interessa (falo sobre esses cursos em breve). Depois comea a trabalhar.
     As condies objetivas de sua carreira so satisfatrias. A ideia de que o professor precisa correr de um lado para o outro, acumulando escolas e horas insanas de trabalho, no resiste  apurao dos fatos. Quase seis em cada dez professores (57%) trabalham em apenas uma escola. Em trs ou mais escolas, s 6% do total. Um tero dos professores d at trinta horas de aula por semana. Vinte e oito por cento lecionam quarenta horas (a carga normal do trabalhador brasileiro) e s um quarto dos professores tem jornada acima de quarenta horas por semana. Dois teros dos professores tm estabilidade no emprego   praticamente impossvel demiti-los. Felizmente, casos de violncia na escola so menos comuns do que a leitura de jornais nos faria crer: 10% dos professores se disseram vtimas de agresso fsica no ltimo ano. Por tudo isso, a sensao geral dos professores com sua carreira  de satisfao. Quase dois teros (63%) esto mais ou igualmente satisfeitos com a profisso quando entrevistados do que no incio de sua carreira. O grau de satisfao mdio do professor, de zero a 10,  de 7,9. S 10% dizem querer abandonar a carreira.
     Essa satisfao  curiosa, porque os professores esto falhando na sua tarefa mais simples, que  transmitir conhecimentos e desenvolver as capacidades cognitivas de seus alunos. No sou eu nem os testes nacionais e internacionais de educao que atestamos isso: so os prprios professores. S 32% deles concordariam em dizer meus alunos aprendem de fato. Dois teros dos professores admitem que s conseguem desenvolver entre 40% e 80% do contedo previsto no ano. S um tero coloca esse patamar acima de 80%. Sintomaticamente, o questionrio do MEC que pergunta sobre esse desempenho nem inclui a possibilidade de o professor ter desenvolvido mais contedo que o previsto. O que explica esse insucesso? 
     Um dos principais viles  identificado pelos prprios professores: seus cursos universitrios. S 34% dos professores acreditam que sua formao est totalmente adequada  realidade do aluno. Nossas faculdades de formao de professores esto mais preocupadas em agradar ao pendor idealista de seus alunos do que em satisfazer suas necessidades tcnicas. So cursos profundamente ideologizados e tericos, descolados da realidade de uma sala de aula mdia brasileira.
     Ento se d o momento-chave para entendermos nosso sistema educacional: o professor sai da universidade, passa em um concurso, chega  sala de aula e, na maioria dos casos, fracassa. Seus alunos no aprendem. Esse professor poderia entrar em crise, poderia buscar ajuda, poderia voltar a estudar, poderia ter planos de apoio de sua Secretaria de Educao. Mas nada disso costuma acontecer, porque no h sano ao professor ineficaz, nem incentivo ao professor obstinado. O professor que fracassa continuar recebendo seu salrio, pois tem estabilidade. Seguir, inclusive, sendo promovido, pois na maioria das redes a promoo se d por tempo de servio ou titulao, no por mrito. Esse professor no ser nem incomodado: um dos pilares de grande parte de nossas redes  a autonomia da escola, a ideia de que ningum pode dizer ao professor o que ou como ensinar. Pais e alunos tampouco costumam se manifestar: confundem uma escola limpa, bonita, que oferece merenda e uniforme com educao de qualidade. O professor pode at faltar ao trabalho sem medo de sanes. Estudo recente sobre a rede estadual de So Paulo mostrou que o professor mdio falta em dezoito dos 200 dias letivos.  um ndice de falta muito superior at mesmo ao dos outros servidores pblicos, que j  maior que na iniciativa privada. Depois de uma investigao de meses com o reprter Rafael Foltram junto s secretarias estaduais, descobrimos que h situaes muito piores, com faltas entre 11% e 15% dos dias letivos. E isso  certamente uma subestimao, pois a maioria das secretarias no fica sabendo quando um professor se ausenta durante parte de um dia; algumas s so notificadas em faltas de trs dias ou mais. O professor deixa de se preocupar em investir em si mesmo: 74% veem TV todos os dias, mas s 12% leem livros de fico e 17% participam habitualmente de seminrios de atualizao.
     Mesmo nesse sistema to permissivo e ineficiente, persiste um problema: os professores sabem que seus alunos no esto aprendendo. E  extraordinariamente difcil a qualquer pessoa continuar em uma carreira, indo ao trabalho todos os dias, sabendo-se um fracasso. Muitos profissionais sucumbem  depresso e ao esgotamento. Alguns abandonam a carreira. Mas a maioria resolve essa dissonncia cognitiva (eu sou um bom professor, meu aluno no aprende) de duas maneiras: culpando o aluno e redefinindo o sucesso. Alfabetizar e ensinar a tabuada, por exemplo, deixam de ser medies vlidas de xito e passam a ser vistos como reducionismo. O importante  a libertao do esprito, e isso qualquer um pode definir da maneira que lhe gerar conforto, no recndito de sua alma. J a culpabilizao do aluno e de sua famlia  mais ostensiva. Eis as explicaes dos professores para as dificuldades de aprendizagem dos alunos: 94% apontam a falta de assistncia e acompanhamento da famlia, 89% citam o desinteresse e a falta de esforo do aluno e 84% dizem ser decorrentes do meio em que o aluno vive. Nossos alunos, especialmente os pobres, so massacrados por um mar de descrena e descompromisso do sistema que a sociedade financia para educ-los. S 7% dos professores acreditam que quase todos os seus alunos entraro na universidade.
     Esses professores criaram uma leitura de mundo  parte e completa para se blindarem contra o prprio insucesso. Qualquer crtica ou cobrana s pode vir de algum celerado que pretende privatizar a escola ou quer alienar o alunado. Pesquisas no so confiveis, nmeros mentem, estatsticas desumanizam: os professores no precisam de ajuda, muito menos de interferncia. Segundo eles, o exerccio da docncia  algo to particular, hermtico e incompreensvel que no pode se sujeitar aos mtodos investigativos que analisam todas as outras reas do conhecimento humano: s quem vive a mesma situao  que pode falar alguma coisa. Na rea da sade, seria ridculo dizer que um pesquisador de laboratrio no pode criar um remdio porque nunca atendeu pacientes com aquela doena ou que um mdico s poderia realmente tratar do doente se tivesse passado um tempo considervel internado no hospital. Na educao brasileira, o discurso de que os de fora no podem se meter  aceito sem hesitao.
 por isso que me parecem disparatadas as iniciativas que querem usar de aumentos oramentrios para recuperar a dignidade do magistrio ou melhorar a educao dobrando os salrios dos profissionais da rea. A maioria dos professores no est com a dignidade abalada. Est satisfeita, acomodada. O professor no se tornar um profissional mais exitoso se no tiver uma profunda melhora de preparo, por mais que seu salrio seja aumentado. Se compararmos nosso alto gasto em educao com o baixo resultado que o sistema educacional entrega ao pas, o surpreendente  que a autoestima dos educadores esteja to alta. Ao lidar com o luto do nosso insucesso educacional, a maioria dos professores ainda est na fase da negao (a culpa  dos alunos e pais) e raiva (contra o mundo neoliberal, a falta de apoio etc.). Esse mecanismo de defesa tem uma utilidade importante: faz com que o professor possa prosseguir em sua carreira, sem sucumbir ao desespero que fatalmente adviria se percebesse a dimenso de seu insucesso. Mas, para o pas, cobra um preo alto. Primeiro, porque aliena os professores bons e aqueles que ainda no so bons, mas so comprometidos, batalhadores.  difcil visitar uma escola em que no haja uma tenso surda entre a minoria comprometida e a maioria acomodada, e os competentes no querem trabalhar em um ambiente de inrcia. A reao histrica de muitos professores  pgina no Facebook da estudante Isadora Faber (que chegou a ser acusada criminalmente de calnia e difamao por uma professora, o que levou a menina de 13 anos a ter de prestar depoimento em delegacia)  demonstrativa da total intransigncia desses profissionais com qualquer denncia que abale o status quo. Em segundo lugar, e mais importante, essa resistncia impede os prprios professores de procurar as ferramentas que poderiam melhorar o seu desempenho acadmico. Como sabe qualquer terapeuta, s  possvel ajudar quem quer ser ajudado.
     A sociedade brasileira no pode retirar os maus professores do cargo, pois a maioria tem estabilidade no emprego. Mas tampouco pode tolerar o seu imobilismo. As mirabolantes e simplistas solues oramentrias no resolvem esse problema to difcil: como fazer que professores dessensibilizados por anos ou dcadas de cinismo voltem a ter a esperana e o brilho nos olhos que os fizeram optar por essa linda profisso.
GUSTAVO IOSCHPE  economista


